Reflorestamento maciço não é solução eficaz contra o aquecimento global, alertam cientistas da UFMG

06.11.2019

Contestando os apontamentos de estudo publicado na Science em julho, que defendia o reflorestamento como forma de mitigar o processo de mudança climática que atinge o mundo, um grupo transnacional de 46 cientistas publicou na mesma revista um duro comentário técnico ao artigo original. Os especialistas - entre os quais se incluem oito pertencentes a instituições brasileiras, sendo dois da UFMG – demostraram que a estimativa de sequestro de carbono apresentada pela pesquisa estava fortemente superestimada.
 
Segundo o primeiro artigo, através do florestamento e o reflorestamento de 900 milhões de hectares ao redor do mundo, seria possível promover o sequestro de 205 gigatoneladas de carbono (GtC). Isso significaria que o simples plantio maciço e indiscriminado de árvores compensaria cerca de um terço de todo carbono já emitido pelo homem ao longo de sua história (660 GtC), notadamente a partir do século 18, com a Revolução Industrial.
 
Agora os comentaristas demostraram que se o plantio de árvores fosse realizado na perspectiva indistinta proposta pelo estudo original, ele poderia, em certos casos, colaborar não para mitigar o aquecimento global, mas para acelerá-lo, além de comprometer biomas.
 
Além disso, os pesquisadores esclareceram que seria errôneo considerar como positivo o florestamento de campos, savanas e matorrais, ecossistemas cuja manutenção de biodiversidade pressupõe justamente a pouca cobertura de árvores, assim como o realizado em regiões nas quais o dossel que seria formado pela copa das árvores reduziria o albedo terrestre, como as áreas de altas latitudes.
 
“As árvores são menos refletivas que a neve, que o solo descoberto ou que os campos, portanto absorvem mais energia solar, que é finalmente emitida como calor. Assim, em altas latitudes e elevações, o efeito de aquecimento causado pelas árvores é maior que o efeito de resfriamento que elas causam via sequestro de carbono”, escrevem os pesquisadores em seu comentário. “Da mesma forma, árvores plantadas em regiões semiáridas e de baixa latitude podem produzir aquecimento por décadas, antes que os benefícios do sequestro de carbono sejam realizados”, dizem.
 
Inconsistências e dados superestimados
O comentário técnico assinado pelos pesquisadores da UFMG indica que o artigo da Science superestimou em quase cem gigatoneladas os ganhos de carbono orgânico no solo (SOC) que o aumento da cobertura arbórea geral causaria, na medida em que assumiu erroneamente que áreas sem árvores necessariamente não possuem SOC, quando, na verdade, em áreas como as das savanas tropicais úmidas, por exemplo, 86% de todo o carbono está no solo. As correções reduzem a estimativa de potencial sequestro de carbono por um fator de cinco, limitando- à quantidade ainda substancial de 42 GtC.
 
Fernando Augusto de Oliveira e Silveira e Geraldo Wilson Fernandes, professores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, uniram-se ao grupo de cientistas movidos pela gravidade do tema. “A verdade é que o artigo conta com vários erros metodológicos, a começar por partir de um conceito errado de floresta”, explica Fernando Augusto. “Seus autores consideram como floresta qualquer área que tenha mais de 10% do terreno preenchido por árvores: isso é falta de conhecimento ecológico, que remonta a um colonialismo científico muito torpe”.
 
O professor ainda evidencia a falta de especialização técnica dos autores do artigo original. “Estamos falando de pessoas que, em sua maioria, não têm formação de ecologia de campo, mas sim no campo da engenharia florestal ou da modelagem matemática. Eles só trabalham com modelos matemáticos; ignoram como a natureza funciona efetivamente, a complexidade de seus ecossistemas. Falam em plantar árvores em lugares em que o clima não consegue suportar, em que a terra não consegue suportar. Para essas pessoas, tudo é árvore”.
 
Geraldo Wilson Fernandes também ficou perplexo com a proposta de se florestar biomas como a savana e o cerrado. “O cerrado, por exemplo, é uma floresta de cabeça para baixo, um bioma importantíssimo para a produção de água, para a biodiversidade. Enchê-lo de árvores, como propõe o artigo, pode influenciar dramaticamente a produção de água, tornando ainda pior a crise ambiental que o mundo está vivendo”
 
“Embora a restauração ecológica, se cuidadosamente implementada, possa ter um papel na mitigação da mudança climática, ela não substitui o fato de que a maioria das emissões de combustíveis fósseis precisará parar para que possamos cumprir as metas do Acordo de Paris”, alertam os pesquisadores no comentário. “Essa ação deve ser acompanhada de políticas que priorizem a conservação de ecossistemas intactos da biodiversidade, independentemente de conterem muitas árvores”, insistem.
 
Interesses econômicos
Segundo Fernandes, as estratégias do texto original não têm base científico-ecológica. “Elas propõem, no fim das contas, transformar biomas complexos em grandes roças de eucaliptos, que não têm relação nenhuma com a fauna e a flora local, e levam o solo ao caos. Portanto, é preciso entender qual a motivação de se propor algo desse tipo. São medidas que atendem não ao interesse do meio ambiente, mas ao interesse de empresas ligadas ao ramo da silvicultura”, alerta.
 
O artigo publicado na Science recebeu outras seis críticas, além da feita pelos professores da UFMG.  “A verdade é que existe uma agenda política – que não é só política, mas também econômica – de fomentar o plantio de árvores. Existe uma indústria por trás desse tipo de discurso acadêmico, uma indústria que está financiando esses projetos de florestamento. Há muita gente ganhando dinheiro com o plantio de árvores”, alerta Fernando Augusto.
 
A pesquisa publicada pela Science foi financiada pela DOB Ecology, fundação ambiental holandesa, pelo Plant-for-the-Planet, grupo de fomento ao plantio de árvores, e pelo ministério alemão para a cooperação econômica e o desenvolvimento. Sua coleta de dados, particularmente, foi parcialmente subsidiada pela iniciativa internacional para o clima do ministério alemão para o meio ambiente, conservação da natureza, construção e segurança nuclear.
 
Autores: Joseph W. Veldman, Julie C. Aleman, Swanni T. Alvarado, T. Michael Anderson, Sally Archibald, William J. Bond, Thomas W. Boutton, Nina Buchmann, Elise Buisson, Josep G. Canadell, Michele de Sá Dechoum, Milton H. Diaz-Toribio, Giselda Durigan, John J. Ewel, G. Wilson Fernandes, Alessandra Fidelis, Forrest Fleischman, Stephen P. Good, Daniel M. Griffith, Julia-Maria Hermann, William A. Hoffmann, Soizig Le Stradic, Caroline E. R. Lehmann, Gregory Mahy, Ashish N. Nerlekar, Jesse B. Nippert, Reed F. Noss, Colin P. Osborne, Gerhard E. Overbeck, Catherine L. Parr, Juli G. Pausas, R. Toby Pennington, Michael P. Perring, Francis E. Putz, Jayashree Ratnam, Mahesh Sankaran, Isabel B. Schmidt, Christine B. Schmitt, Fernando A. O. Silveira, A. Carla Staver, Nicola Stevens, Christopher J. Still, Caroline A. E. Strömberg, Vicky M. Temperton, J. Morgan Varner, Nicholas P. Zaloumis.
Publicação: Science, 18 de outubro de 2019
 
Redação: Boletim UFMG
Compartilhe:

Escola de Veterinária da UFMG
Av. Antônio Carlos 6627
Caixa Postal 567, campus Pampulha da UFMG
CEP: 31270-901. Belo Horizonte, MG
TELEFONE DA ESCOLA: +55 31 3409-2001
WHATSAPP DA ESCOLA: +55 31 98661-8229
Hospital Veterinário da UFMG
Av. Presidente Carlos Luz, 5162
TELEFONE DO HOSPITAL VETERINÁRIO: +55 31 3409-2000 ou +55 31 3409-2276