Livro aborda história do campus UFMG na Pampulha

22.05.2019

“O que a senhora está fazendo aqui em cima, professora?” – perguntou gentilmente um segurança do campus ­Pampulha, ao deparar com a historiadora Heloisa Starling na cobertura do prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, onde trabalha. Ela fora conferir a informação de que os urubus preferem as coberturas da Fafich, da Faculdade de Letras e da Biblioteca Central. “É que os urubus não fazem ninhos, e, no alto desses edifícios, eles encontram as frestas perfeitas para guardar seus ovos”, explica.
 
Heloisa Starling conta essa história, entre tantas outras, ao falar de sua pesquisa para o livro Campus UFMG, mais novo integrante da coleção BH. A cidade de cada um, da Conceito Editorial. Com prosa leve e bem-humorada, em que se dirige diretamente ao leitor, a autora mistura casos pitorescos, lendas, o processo da construção do campus ao longo de seis décadas e episódios ocorridos em momentos graves que, conforme destaca, moldaram o caráter da Universidade.
 
Fruto de “pesquisa de historiadora, guiada pelo afeto”, como diz Heloisa, o livro valoriza, por exemplo, o longo esforço de arborização do campus Pampulha e a disputa sobre a preservação do terreno que hoje abriga a Estação Ecológica, que chegou a ser destinado à construção das faculdades de Odontologia e Farmácia. “A polêmica em 1992 consolidou o momento a partir do qual a comunidade universitária passou a manifestar publicamente seus pontos de vista e a discutir, por vezes apaixonadamente, as relações que desejava estabelecer com o mundo natural, no lugar que escolheu para viver sua rotina diária”, escreve Heloisa Starling.
 
A autora percorre o campus também para mostrar que suas vias não foram batizadas à toa – “é no ato de nomear seus espaços que a Universidade narra suas histórias”, afirma Heloisa. No livro, ela explica as razões das homenagens a nomes como Eduardo ­Frieiro, professor de literatura espanhola e hispano-americana, único catedrático da UFMG que só tinha o curso primário; Francisco de Assis Magalhães Gomes, criador e primeiro diretor do Instituto de Ciências Exatas e um dos pioneiros das pesquisas nucleares no país; e Conceição Ribeiro Machado, que, em seu discurso de professora emérita, proferido em 31 de outubro de 1997, Dia das Bruxas, denunciou “a fogueira em que se queimavam o conhecimento e as personagens femininas que o produziam”.
 
Sacis e fantasmas
Heloisa Starling não se furta a encarar as lendas do campus ­Pampulha. Ela volta à Estação Ecológica para falar do “sacizeiro” e diz que basta encostar o ouvido num gomo de bambu para escutar os meninos de uma perna só. “Os sacis são o espírito dos caminhos que atravessam o campus: protegem bichos, plantas e até as pessoas, mas não é fácil vê-los”, escreve. Fenômenos sobrenaturais também habitam a Reitoria: há quem garanta que da antessala do Conselho Universitário sai uma luz ofuscante na noite da véspera do aniversário da UFMG, em 7 de setembro. Heloisa aproveita o ambiente em que ficam os retratos dos reitores e reitoras para imaginar uma cena rica (e divertida) de diálogos e lembranças, em que eles e elas “se aborrecem, resmungam, vangloriam-se”.
 
 
Heloisa: esforço de arborização e polêmica sobre Estação Ecológica
Bianca de Sá | Papelícula
 
A autora revela que uma de suas estratégias na escrita de Campus UFMG foi iniciar os capítulos com histórias de luta pela autonomia e contra a opressão. Em 1930, o primeiro reitor da UFMG, Francisco Mendes Pimentel, apoiado na premissa de que governos não devem interferir na autonomia universitária, recusou-se a obedecer, também contra a vontade dos estudantes, ao decreto de Getúlio Vargas que aprovava automaticamente os alunos sem necessidade de exames finais. A razão não assumida era que a Revolução de 30 tivera apoio de estudantes, que chegaram a pegar em armas. Na reunião do Conselho Universitário para deliberar sobre o assunto, ocorreu um episódio em que o aluno de medicina José Ferreira Vianna, de 23 anos, morreu atingido por um tiro. “Foi um divisor de águas para a então Universidade de Minas Gerais. Mendes Pimentel sonhava com uma grande universidade”, afirma a autora.
 
Em 9 de julho de 1964, foi a vez do reitor Aluísio Pimenta resistir à tentativa de intervenção na UFMG pelo governo militar. Deixou falando sozinhos os oficiais que invadiram seu gabinete e botou a boca no mundo. “Ele aprontou um escândalo sem tamanho”, escreve Heloisa Starling. “Professores, estudantes e funcionários se uniram na luta pela autonomia universitária, e a opinião pública apoiou a UFMG.”
 
“Espero que os estudantes leiam o livro, eles vão gostar. A leitura vai tornar mais apurado o olhar para o campus e para a UFMG”, diz a autora, reforçando também a importância de conhecer a história da Universidade para defendê-la. “A instituição não se defende sozinha, é necessário que a comunidade se mobilize. A história da UFMG ensina a garantir a liberdade.”

Redação: Cedecom

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