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Notícia

Necessidade de unidades de internação em BH pode chegar a 15 mil em um só dia, avalia estudo da UFMG

O distanciamento social que muitos belo-horizontinos adotaram espontaneamente antes de 23 de março – quando entrou em vigor a restrição oficial de funcionamento do comércio e serviços não essenciais na capital mineira –, aliado à decisão de algumas instituições de ensino, entre as quais a UFMG, de suspender as aulas devido à pandemia da Covid-19, teve impacto positivo sobre a evolução da doença em Belo Horizonte. 
 
Com isso, a necessidade simultânea de estrutura para internação em hospitais, que chegou a ser estimada em 100 mil leitos em um único dia, foi consideravelmente reduzida. Ainda assim, a demanda de unidades de internação pode chegar a 15 mil em um único dia, sendo que a capital mineira reúne sete mil unidades. Os resultados evidenciam que ações oficiais de restrição de circulação precisam ser implementadas.e reforçadas.
 
Essa é uma das conclusões do estudo Análise do efeito das medidas de contenção à propagação da Covid-19 em Belo Horizonte (23/03 a 29/03), desenvolvido pelo grupo de trabalho Modelagem da Covid-19, que reúne 30 pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa mineiras, liderados pelo Departamento de Matemática do Instituto de Ciências Exatas da UFMG. Trata-se do segundo relatório produzido pelo grupo, que tem tentado projetar cenários para apoiar o poder público na tomada de decisões relacionadas ao manejo da pandemia. Confira o primeiro relatório.
 
No estudo anterior, que compreende o período de 16 a 22 de março, o grupo indicou a possibilidade de que a necessidade simultânea de leitos chegasse, no pior cenário, a 90 mil em um único dia, o que provocaria o colapso dos sistemas público e particular de saúde. Àquela altura, entretanto, ainda não havia dados disponíveis sobre a evolução da doença em Belo Horizonte, motivo pelo qual foram usados dados de outras partes do Brasil, além de parâmetros mais universais referenciados na China, como tempo de duração do período de incubação e duração média do período infeccioso.
 
O novo estudo já considera dados epidemiológicos da capital mineira, que não são capazes, entretanto, de representar o momento atual, dada a própria dinâmica da doença e dos seus registros. Conforme aponta o relatório, entre o momento em que um indivíduo tem contato com o vírus e aquele em que manifesta os primeiros sintomas, há um intervalo que se deve ao período de incubação da doença, de 3,69 dias. Entre os sintomas e a busca por serviço de saúde, esse atraso é de três dias. Se houver indicação para testagem, há um retardo cujos dados ainda são insuficientes para o estabelecimento de média –, os pesquisadores consideraram mínimo de cinco dias. Se o resultado for positivo, ainda há uma demora adicional de ao menos um dia até que ele seja contabilizado nas estatísticas governamentais. 
 
Portanto, informa o relatório, entre o início da adoção de medidas que provoquem a redução da taxa de transmissão do vírus e o efeito delas na contagem de casos confirmados da doença, decorrem pelo menos 12 dias. Neste momento, dez dias após a adoção das normas que modificam o funcionamento dos serviços no município de Belo Horizonte, ainda não é possível mensurar os efeitos de tais normas na contagem de novos casos da doença.
 
Os pesquisadores trabalharam ainda com dados anteriores à decisão da administração da capital, em conjunto com o governo do Estado, de adotar medidas de distanciamento social. Um novo relatório deve ser divulgado até o fim da semana, já considerando os efeitos das medidas oficiais. O coordenador da pesquisa, Ricardo Hiroshi Caldeira Takahashi, destaca a importância de produzir relatórios que acompanhem a evolução da epidemia no tempo, o que possibilita ao grupo ajustar os dados e produzir avaliações com graus de incerteza cada vez menores.
 
Testar e checar
 
Como a epidemia na capital mineira ainda está em suas primeiras semanas – o primeiro caso foi registrado apenas em 16 de março –, ainda há um intervalo significativo de incertezas associado aos dados epidemiológicos. Não apenas em função de uma suposta alta subnotificação, uma vez que apenas os casos graves estão sendo testados, mas também em razão da grande demora na liberação dos resultados. Por isso, o grupo resolveu aplicar duas técnicas de modelagem, que chegaram a parâmetros muito parecidos, e sustentam que, sem intervenção do poder público na tomada de decisão por meio de medidas de distanciamento social, Belo Horizonte sofrerá uma sobrecarga de exigência de leitos que poderá resultar em grande número de mortes por falta de assistência.
 
A partir da primeira técnica, a mesma utilizada no estudo anterior, o grupo de trabalho aponta que Belo Horizonte necessitaria, no pior cenário, de 15 mil leitos, em um único dia, para atender os doentes de Covid-19 e de cerca de sete mil leitos, também em um único dia, no melhor dos cenários. As situações hipotéticas são relacionadas ao grau de comprometimento da população com comportamento de prevenção e distanciamento social. Na segunda técnica, utilizada para lançar outro olhar para os mesmos dados, evitar erros sistemáticos e garantir a confiabilidade dos resultados, o intervalo é de oito mil a 14 mil leitos necessários em um único dia.
 
"As medidas tomadas de maneira mais ou menos espontânea pela população diminuíram a taxa de crescimento da epidemia. Se apenas essas medidas fossem aplicadas, já haveria uma redução muito significativa na sobrecarga do sistema de saúde [na comparação com o estudo anterior]", projeta o professor Ricardo Takahashi, coordenador do estudo. No entanto, ele afirma que, mesmo no melhor cenário, isso ainda é insuficiente para evitar um período de caos no atendimento aos doentes. "Assim, o relatório sugere que é importante a adoção de medidas de isolamento social por parte dos governos. Essa parece a única forma possível de se tentar compatibilizar o número previsto de leitos necessários nos piores momentos que ainda estão por vir com a capacidade instalada – ou a ser instalada no curtíssimo prazo – do sistema de saúde", defende.
 
Efeitos do distanciamento forçado
 
Somente no relatório com divulgação prevista para o próximo fim de semana, será possível avaliar o impacto da adoção do distanciamento compulsório imposto pela prefeitura. O grupo espera poder gerar dados que ajudem a responder se as medidas adotadas já foram suficientes para que "o número máximo de doentes, no pior momento da epidemia, não seja disparatadamente maior que a capacidade de atendimento do sistema de saúde”, explica Takahashi.
 
Esse relatório, no entanto, não será capaz de apontar os eventuais efeitos do relaxamento do distanciamento social observado em Belo Horizonte nos últimos dias, fato que levou a prefeitura a interditar espaços como as praças da Liberdade e JK, devido à insistência da população em utilizá-las como espaço de lazer.
 
"Nossas análises são capazes de medir efeitos de ações, quaisquer que sejam elas, com cerca de 12 dias de atraso. Assim, um 'relaxamento' em curso só vai começar a apresentar consequências no número de infectados dentro de cerca de 12 dias, no número de leitos hospitalares necessários em 15 dias e nas estatísticas de fatalidades em 25 dias. Enfim, trata-se de um fenômeno muito contraintuitivo para o senso comum, e essa é uma das grandes dificuldades na tarefa de comunicação desse problema”, finaliza o pesquisador.
 
Estudo: Análise do efeito das medidas de contenção à propagação da COVID-19 em Belo Horizonte (23/03 a 29/03) 
 
Grupo de trabalho Modelagem da Covid-19, que reúne 30 pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa mineiras.
 
 
Texto de Tacyana Arce (CEDECOM)

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