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Notícia

Dados UFMG: Ação humana deteriora ambientes e ameaça aves endêmicas

Especulação imobiliária, queimadas, exposição do solo, mineração, desmatamentos, poluição do ar e da água, extração ilegal de plantas ornamentais e medicinais. Estudos recentes, publicados por pesquisadores da UFMG, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Minas Gerais (original name) Minas Gerais (PUC Minas), revelam o quanto atividades como essas têm fragmentado ambientes fundamentais para a sobrevivência de aves endêmicas, tanto de áreas campestres e florestais, remanescentes das grandes cidades, como a Mata da Izidora, em Belo Horizonte, quanto de áreas montanhosas, como a Cadeia do Espinhaço, a Serra da Mantiqueira, a Chapada Diamantina e a Serra do Caparaó.
 
Responsáveis pela produção de serviços ecossistêmicos essenciais para os próprios seres humanos, como a polinização e a dispersão de sementes que contribuem para a preservação de espécies da flora nativa ou de culturas humanas e até para recuperação de cobertura vegetal de áreas degradadas de nascentes, essas aves têm sobrevivido em ambientes cada vez menos adequados às suas necessidades.
 
Em Belo Horizonte, no último remanescente de área periurbana desprotegida, composta de Mata Atlântica e Cerrado, com quase 970 hectares (20% do território da capital), o cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla), ave endêmica da Mata Atlântica – que já figura na lista de espécies ameaçadas no mundo e está extinta em alguns estados brasileiros – luta pela própria sobrevivência juntamente com outras 138 espécies de aves já catalogadas no local.
 
A Mata da Izidora, com seus 64 córregos e 280 nascentes, foi foco de intensa especulação imobiliária e conflitos socioambientais, especialmente de 2012 a 2017. A área abriga o Quilombo de Mangueiras e as ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória.
 
Em apenas seis anos (2012 a 2018), a região que faz limite com o município de Santa Luzia sofreu uma redução de 10% de sua área florestada e 20% de área campestre. Isso representa 50 hectares de floresta e 90 hectares de cerrado a menos, ou o significativo aumento de 100% de exposição do solo (retirada de vegetação para construção de edificações ou pavimentação de vias). Os dados constam do estudo Crescimento urbano não planejado e seus potenciais impactos sobre as espécies de pássaros em uma cidade sul-americana, desenvolvido pelo pesquisador Tulaci Bhakti, doutorando do programa de Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre da UFMG. O trabalho foi publicado na revista Floresta e Ambiente e também é assinado pelo professor Marcos Rodrigues, do Departamento de Zoologia da UFMG, e pelo pesquisador João Carlos Pena, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Rio Claro.  
 
“Muitas vezes, por falta de conhecimento, as pessoas olham para essas áreas de cerrado como um lugar vazio esperando para ser ocupado. Planejam a retirada da vegetação nativa para construir alguma edificação e a posterior compensação com o plantio de grama ou alguma espécie frutífera. Os cerrados também precisam de uma legislação de proteção mais rigorosa, como a Lei da Mata Atlântica. E sofrem também em razão de suas próprias características, já que é mais fácil passar um trator sobre sua vegetação”, observa Tulaci.
 
Embora considerada área de preservação pelos dois últimos planos diretores de Belo Horizonte, oficializada dentro de um zoneamento específico, a vegetação nativa continua desaparecendo. O desafio, segundo Tulaci, é conseguir viabilizar ações interdisciplinares – conciliar ecologia urbana com as leis de uso e ocupação do solo, considerando a história dos bairros, a tradição das comunidades, a comunicação e interação com os órgãos públicos e a academia. 
 
A criação de parques e o aproveitamento dos próprios corredores verdes, como os parques lineares dos ribeirões do Onça e do Arrudas, são propostas para a preservação do microclima dessas áreas e podem contribuir para melhorar a qualidade de vida dos habitantes das grandes cidades e preservar a integridade dos ambientes e de suas espécies da flora e fauna.
 
Perigo nas alturas
 
Mudanças climáticas em áreas montanhosas do leste do Brasil ameaçam a sobrevivência de 10 espécies de aves, que, mesmo em altitudes superiores a 800 metros, não estão imunes a ações antrópicas.
 
Projeção matemática indica a redução, até 2070, da área de adequabilidade ambiental dessas espécies em até 94%. O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores Diego Hoffmann, ornitólogo da Universidade Federal do Espirito Santo, Marcelo Vasconcelos, ornitólogo da PUC Minas, e pelo professor e ecólogo Geraldo Wilson Fernandes, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.  
 
No artigo O destino das aves endêmicas do topo das montanhas do leste brasileiro em face das mudanças climáticas, publicado na revista internacional Perspectivas em Ecologia e Conservação, os pesquisadores mostram que cinco regiões montanhosas destacadas como cruciais para a conservação dessas espécies de aves estão sob forte pressão da ação humana: a porção centro-norte do estado da Bahia, na região da Chapada Diamantina, o conjunto de montanhas no norte de Minas Gerais Minas Gerais (original name) Minas Gerais e no sul da Bahia, o norte da Serra da Mantiqueira, entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais Minas Gerais (original name) Minas Gerais , o maior bloco da porção centro-sul da Cadeia do Espinhaço e um pequeno conjunto de áreas elevadas isoladas no oeste do Espírito Santo, em particular a Serra do Caparaó.
 
O professor Geraldo Wilson Fernandes explica que o estudo considerou os registros de ocorrência de cada uma das espécies estudadas e extraiu informações sobre as variáveis ambientais em cada um desses pontos. As espécies estudadas, endêmicas das regiões montanhosas e que habitam áreas similares, em campos de altitude com afloramento rochosos e vegetação arbustiva, são o beija-flor asa-de-sabre (Campylopterus diamantinensis), o beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), o papa-formiga-do-sincorá (Formicivora grantsaui), o pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis), o lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae), a garrincha-chorona (Asthenes moreirae), o papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris), o rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda) e o tapaculo-da-chapada-diamantina (Scytalopus diamantinensis), que prefere arbustos mais elevados.
 
“Utilizamos cinco algoritmos (funções) diferentes para encontrar um padrão entre as variáveis para essas espécies e projetá-lo sobre o espaço geográfico, com a finalidade de identificar as áreas com características similares para cada espécie. Um determinado ponto foi considerado adequado para a ocorrência de uma espécie se ele foi previsto por pelo menos três dos cinco algoritmos utilizados”, relata Fernandes.
 
Na avaliação do professor do ICB, a Chapada Diamantina pode perder praticamente toda a sua adequabilidade ambiental, o que representa risco para grupos de espécies existentes apenas naquela região, os chamados endemismos. A porção centro-sul da cadeia do Espinhaço é outra área ameaçada pela mineração – há projetos de novas minas para esse trecho da cadeia.
 
“Com a elevação da temperatura, espera-se que essas espécies venham a ajustar sua distribuição para áreas mais elevadas ou para o sul, onde o clima tende a ser mais ameno. Em um gradiente altitudinal, há uma variação na temperatura, que vai diminuindo da base em direção ao topo. Assim, esperamos um deslocamento na distribuição dessas espécies”, observa Geraldo Fernandes.
 
Entretanto, alerta o professor, como as áreas elevadas são restritas nas cadeias de montanha do leste do Brasil, muitas dessas espécies poderão estar ameaçadas em um futuro não muito distante. "E mesmo que elas tentassem cruzar altitudes mais baixas, iriam deparar com campos e florestas fragmentados ou cidades e rios poluídos", afirma.

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