Postado por Olhar Animal – 11/02/2026

Protetores da causa animal se preocupam com um procedimento adotado pelo CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Campo Grande, MS. Após castração, gatos são entregues aos tutores com as patas amarradas com fita crepe. Principalmente para animais ariscos, isso representa risco tanto para quem retira a fita das patinhas quanto para o felino, que pode fugir com os membros enfaixados.

Em nota, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), pasta responsável pelo CCZ, diz que as bandagens “não representam procedimento improvisado ou ausência de técnica”, que a prática visa “reduzir o risco de autolesões decorrentes de reações ou movimentação imediatamente após a anestesia”, que “bandagens têm indicação específica em pós-operatórios” e “o material escolhido tem como característica desprender-se espontaneamente dentro de um prazo seguro, em média de até 72 horas”. Confira a nota completa abaixo.

Imagens dos gatinhos com a pata presa circulam em grupos de mensagem e revoltam protetores. “Isso é um protocolo da era das cavernas, todas nós estamos indignados”, diz a responsável por felinos que relatou a situação à reportagem. Segundo ela, isso não acontecia até outubro de 2025. “Eles estão fazendo isso em geral, não tem necessidade”, afirma.

O maior problema é para gatos ariscos ou aqueles considerados ferais — que nasceram ou cresceram em meio selvagem, como as ruas, sem manter contato direto e frequente com seres humanos. “Ele precisa das patas quando é solto, para subir em árvore, por exemplo”, explica a ativista da causa animal. Ela já chegou a arriscar-se com um pano para retirar as fitas de um gato que vive nos telhados. “Não dava pra soltar assim”, relata. Em outros casos, responsáveis por felinos só perceberam a fita após a soltura do animal.

Funcionários do CCZ teriam dado uma explicação a tutores: “Alegam que um gato se arranhou todo quando acordava da anestesia e, por causa desse caso isolado, adotaram a medida. Ou seja, um em mil”, opina a protetora de animais.

O que diz o CCZ?

Em nota enviada à reportagem após a publicação desta matéria, a Sesau defende que o uso de curativos nas patas de felinos é uma prática reconhecida e evita contato direto de feridas com o ambiente, além de proteger áreas sensíveis. Confira a íntegra:

“A Sesau informa que as bandagens aplicadas nas patas dos felinos no pós-operatório não representam procedimento improvisado ou ausência de técnica, mas sim uma medida vetorizada para resguardar a integridade física dos animais após cirurgias, tendo sido explicada ao responsável no momento da alta. A função das fitas é proteger as extremidades e reduzir o risco de autolesões decorrentes de reações ou movimentação IMEDIATAMENTE após a anestesia, período em que o animal ainda pode manifestar respostas reflexas inesperadas à medicação.

O uso de curativos e materiais de proteção após procedimentos veterinários é uma prática reconhecida para evitar contato direto de feridas com o ambiente e proteger áreas sensíveis, desde que aplicada e monitorada por profissionais capacitados. Bandagens têm indicação específica em pós-operatórios para favorecer conforto e reduzir riscos de complicações, sendo sempre adaptadas às necessidades de cada caso e gesto clínico.

Ressaltamos que a remoção das bandagens não precisa ser feita manualmente pelo tutor, justamente porque o material escolhido tem como característica desprender-se espontaneamente dentro de um prazo seguro, em média de até 72 horas, sem comprometer a recuperação cirúrgica nem exigir intervenção direta. Isso também evita situações de estresse ou manuseio desnecessário do animal ainda em recuperação.

Sobre a adequação e a eficácia do protocolo anestésico, esclarecemos que os procedimentos seguem rigorosamente os padrões da medicina veterinária, utilizando tiletamina associada ao zolazepam, dentro de um protocolo multimodal que inclui miorrelaxantes e analgésicos opioides, garantindo segurança e equilíbrio farmacológico; além disso, são empregados agentes anticolinérgicos na medicação pré-anestésica para prevenir bradicardia, reduzir secreções e assegurar estabilidade clínica, especialmente quando há uso de agonistas alfa-2, como a xilazina.

Reiteramos o compromisso com protocolos técnicos estabelecidos e monitorados por equipe qualificada, garantindo que as orientações entregues ao responsável reflitam o que há de mais adequado em cuidados pós-operatórios”.

Especialista critica

A mestra em Ciência Animal pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais Minas Gerais (original name) Minas Gerais ) e referência quando o assunto é gatos abandonados, Otávia Augusto de Mello, demonstrou preocupação sobre o procedimento adotado em Campo Grande. “Demonstra desconhecimento em lidar com a espécie felina, uma vez que qualquer material nas patas dos animais só aumenta o estresse dos mesmos”, diz a especialista.

Segundo ela, o correto seria apenas manipular o animal quando ele estiver plenamente sedado, dentro da armadilha ou caixa de transporte. “Pode indicar que não estão anestesiando os gatos adequadamente antes da cirurgia”, sugere Otávia Augusto de Mello. “[Isso] expõe os cuidadores a perigos de agravos, como mordeduras, para retirar o material colocado em um animal já estressado pela manipulação”, conclui.

Conselho de Medicina Veterinária

Na tarde desta segunda-feira (9), o CRMV-MS (Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul) se manifestou sobre a preocupação de protetores da causa animal com os procedimentos adotados pelo CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Campo Grande.

De acordo com o Conselho, durante procedimentos de castração de felinos, especialmente em animais ariscos ou não socializados, “devem ser adotadas condutadas que priorizem a segurança da equipe e o bem-estar animal, respeitando critérios técnicos e éticos da Medicina Veterinária”.

Assim, é o médico veterinário responsável pelo procedimento quem definirá as técnicas de contenção e manejo mais apropriadas, considerando o perfil do animal e o protocolo anestésico adotado. Todas as medidas, no entanto, devem ser “devidamente esclarecidas ao responsável legal pelo animal, de forma transparente e prévia”.

Ou seja, o erro não estaria no método de contenção escolhido, mas, sim, no pós, já que os animais deveriam ter as bandagens retiradas antes do efeito da sedação acabar.

“Recomenda-se que qualquer método de contenção seja temporário e integralmente removido ainda sob efeito de sedação, evitando riscos no período de recuperação anestésica e na liberação do animal, sobretudo em se tratando de gatos ferais”, afirma o Conselho em nota.

Castração no CCZ

Em novembro de 2025, a Prefeitura de Campo Grande criou o “Programa Permanente de Manejo Ético-Populacional de Cães e Gatos”. A iniciativa estabelece diretrizes para castração de animais, com foco no bem-estar animal, na saúde pública e no equilíbrio ambiental. O projeto estima até 34 mil castrações gratuitas por ano na Capital.

Todo o trabalho deve seguir normas técnicas previstas pelo CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária).

Têm prioridade no atendimento:

animais de vida livre, assim como os que estão em situação de abandono;

cães e gatos acolhidos por organizações de proteção animal;

animais em lares temporários sob responsabilidade de protetores independentes;

animais comunitários;

tutores cadastrados no CadÚnico.

Após cada procedimento, o tutor recebe comprovante com informações sobre local da cirurgia, data, veterinário responsável e características do animal. Além disso, a Prefeitura divulga mensalmente, em plataforma digital, relatórios com o número de esterilizações realizadas, detalhadas por espécie, sexo e idade.

Por Murilo Medeiros

Fonte: Midiamax

Legendas das Fotos:

Gatos com a pata presa com fita crepe após castração no CCZ. (Foto: Fala Povo Midiamax)

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