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Outubro Rosa Pet faz alerta ao câncer de mama animal


Veículo de Comunicação: Jornal Opinião & Notícia - 27 de outubro de 2017

Ao contrário do que muitos pensam, os animais não estão livres das doenças humanas. E o objetivo do Outubro Rosa Pet é exatamente chamar a atenção para os donos de animais, principalmente cachorros e gatos, sobre os riscos e cuidados com o câncer de mama nesses pequenos membros da família. De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem hoje 52,2 milhões de cães em residências em todo o Brasil, e 22,1 milhões de gatos.

Já o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) chama a atenção para os dados alarmantes da incidência do câncer de mama, em pesquisas realizadas pelo Laboratório de Patologia Comparada da UFMG (LPC): estima-se que 45% das cadelas e 30% das gatas sejam diagnosticadas com a doença. Os números ganham ainda mais destaque quando o órgão revela que cerca de 85% dos tumores são de caráter maligno e 17% das cachorras são diagnosticadas já em estágio avançado, indo a óbito em até sete meses após a remoção da mama.

Infelizmente, a doença parece ser ainda mais comum em cadelas entre 10 e 11 anos, principalmente nas que apresentam uma pré-disposição para o desenvolvimento do câncer ou estão obesas. Além disso, os fatores externos também influenciam, como higiene, local onde se vive, entre outras coisas.

Porém, nem tudo está perdido. Isso porque, se constatado precocemente, as chances de cura são de até 90%. Já como medida preventiva, a principal, segundo os veterinários, é a castração. Se feita, em cadelas, antes do primeiro cio, diminui a chance de desenvolvimento de câncer de mama para menos de 1%; após o segundo cio, 8%; enquanto, depois do terceiro cio, a chance de desenvolvimento já é de 26%. Nas gatas, a possibilidade de aparição da doença pode cair até 90% graças à castração.

Para entender melhor como essa doença atinge os animais, o Opinião e Notícia entrevistou o professor Titular do Departamento de Patologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Geovanni Cassali, que trabalha com tumores de mama em cadelas desde 1994; a doutoranda em Patologia na UFMG, Karen Yumi Nagasaki; e o responsável pelo setor de oncologia do Santo Agostinho Hospital Veterinário, Luiz Flávio Telles.

O câncer de mama também afeta os machos?

Giovanni Cassali (GC): Nas cadelas, os tumores das glândulas mamárias são as neoplasias mais frequentes. Já nas gatas, os tumores das glândulas mamárias são o terceiro tipo mais comum de neoplasia. De maneira similar à espécie humana, os tumores de mama são raros em machos, em geral, inferior a 1%.

Sendo uma doença tão frequente e agressiva em cadelas e gatas, há indicações aos veterinários para sempre alertarem os donos de animais?

GC: Entre fevereiro de 2016 a agosto deste ano, foram realizados 1.392 atendimentos em cadelas com diagnóstico clínico de tumor de mama no Hospital Veterinário da UFMG. Normalmente, muitas delas apresentam doença avançada, o que compromete o tratamento e a cura do animal. Portanto, quando o diagnóstico é feito logo no início, as chances de controlar o avanço do câncer e de cura são bem maiores. Nas gatas, mais de 80% dos os tumores das glândulas mamárias são malignos, além de serem frequentes.

Sabemos que ainda não faz parte da cultura do brasileiro levar os animais com frequência ao veterinário. Isso atrapalha no diagnóstico e no tratamento da doença?

GC: Como comentado anteriormente, muitos dos diagnósticos são realizados em estágio avançado, ou seja, quando os animais já apresentam metástase em linfonodos regionais ou metástases à distância, o que compromete o tratamento e a sobrevida. Sabemos hoje, que de maneira similar à mulher, muitos destes tumores podem começar como lesões não neoplásicas ou evoluírem de tumores benignos para malignos, justificando portanto o maior cuidado com as fêmeas com o avançar da idade.

Quais os principais sintomas do câncer de mama e como os donos podem reparar neles?

Karen Yumi Nagasaki (KYN): A principal característica é o aparecimento de lesões nas mamas, geralmente nodulares, únicas ou múltiplas, de tamanhos variando de milímetros a vários centímetros. Podem acometer uma ou mais glândulas de ambas as cadeias mamárias. Os tutores podem identificar estas lesões fazendo a palpação periódica das mamas dos animais. O ideal é posicionar o animal de barriga para cima de modo que seja possível examinar todas as mamas, verificando a presença de nódulos ou qualquer aumento de volume.

Quais as primeiras mudanças no comportamento do animal? Como, após isso, a doença evolui?

KYN: O comportamento do animal pode não mudar ou mudar tardiamente, por exemplo, se o animal estiver sentindo dor, principalmente nos casos em que há ulceração e inflamação do tumor. Em casos mais avançados em que há metástase pulmonar, o animal pode apresentar algum grau de dificuldade respiratória. O ideal é procurar um médico veterinário o mais rápido possível quando se observar qualquer alteração nas mamas dos animais ou no seu comportamento.

Quais exames são necessários? Poderia descrevê-los?

KYN: Os exames a serem realizados devem ser determinados após análise clínica completa por um médico veterinário de confiança do tutor, e vai depender do estágio clínico do animal.

Em geral, são necessários exames de hematologia e bioquímica pré-cirúrgicos para indicar se o paciente está apto a ser submetido a cirurgia; exames de imagem para detecção de focos de metástase; em alguns casos a análise citológica, principalmente dos linfonodos, quando há aumento de volume; e após a cirurgia o exame histopatológico para definição do tipo e grau histológico do tumor e exame de imuno-histoquímica para determinação de fatores prognósticos e preditivos.

Como ocorre o tratamento? Quais cuidados precisam ser tomados após a cirurgia?

Luiz Flávio Telles (LFT): O tratamento de escolha do câncer de mama é a cirurgia. A quimioterapia pode ser a ferramenta terapêutica utilizada, principalmente quando o tipo histológico é mais agressivo, quando as margens cirúrgicas estão comprometidas ou quando são identificadas metástases. Após a cirurgia é fundamental que haja controle de dor adequado, repouso para evitar deiscência da ferida cirúrgica e utilização de colar elizabetano ou roupa cirúrgica para impedir intervenção do animal.

Quanto tempo dura a recuperação do animal após a cirurgia? É necessária a utilização de algum remédio?

LFT: Quando a cicatrização ocorre por primeira intenção (quando há união imediata das bordas da ferida e cicatriz linear) por volta de 10 a 14 dias, os pontos já podem ser retirados. Dependendo da extensão e dos cuidados com a ferida cirúrgica, não são infrequentes problemas com deiscência. Quando isto ocorre, o período de recuperação pode se estender. Anti-inflamatórios não esteroidais, opioides e outras categorias de analgésicos são utilizados isoladamente ou em associação dependendo da conduta do médico veterinário. Antibióticoterapia pode ser necessária devido ao tempo cirúrgico prolongado.

Qual é o custo médio, desde o diagnóstico, até a recuperação para o dono do animal?

LFT: É bastante complicado definir o custo médio do atendimento a um animal com câncer de mama. Há bastante variáveis que vão onerar mais ou menos o tutor daquele pet. Neoplasias menores geralmente apresentam melhor prognóstico, o tipo histológico tem comportamento menos agressivo, sendo assim intervenção cirúrgica é menos extensa e muitas vezes não há necessidade de quimioterapia adjuvante. Ao contrário, as neoplasias maiores geralmente são mais agressivas. Muitas vezes o diagnóstico acontece quando o estágio da doença já é avançado, isto implica em cirurgia mais agressiva, aumentando o risco de complicações. A quimioterapia adjuvante muitas vezes se faz necessária, aumentando custos com exames e eventuais internamentos que são difíceis de monetizar.


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